Algumas coisas que escrevo por ai

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Black

        Mais uma tarde chega ao fim, ela olha o outro lado da rua, “Cinza, sempre cinza” pensa. Ela não vê as cores do sol sumindo atrás dos prédios. E ela não vê as pessoas passando. As pessoas que correm, que cumprem horários apertados. Ela não vê nada, não, ela só o vê. Ela o vê longe, como se parado no tempo igual a ela.
        As pessoas passando e eles parados. Ele cantarolando Beatles, um pé apoiado na parede, a fumaça saindo por entre seus lábios vermelhos e desejáveis. E ela o olhando, o contemplando parada enquanto seu copo de café esfriava e o black dançava em seus dedos.
       Não que ele fosse um deus grego, nem que ele fosse de uma beleza estonteante. Era a sua personalidade, o seu jeito envolvente, que o tornava tão irressistível. A forma como ele era tão pornograficamente doce, como o anjo de uma meretriz.
       Ele não era o tipo dela. Ele era alto, o corpo mais desenvolvido, ombros largos, barba por fazer em seu doce rosto de 16 anos.
       Ele a olhou. O black escorregou de seus dedos, quase caindo, ela se recuperou a tempo. Trincou os dentes como sempre fazia quando estava nervosa.
      Um sorriso se formou no canto de sua boca. O sorriso dele que ela mais adorava. O sorriso que ela sempre lembrava se formando nos seus lábios enquanto sua pele era comprimida a dele.
      Sempre que esse sorriso se formava ela sentia o mesmo desejo, a mesma tranquilidade que sentiu mesmo estando sem blusa e em cima dele dentro do banheiro feminino da escola. Um sorriso sempre rompia nos labios dela quando pensava nesse pequeno paradoxo particular.
     Sempre tivera medo de atravessar a rua e sempre disseram ser um medo infundado.
     Do outro lado da rua ele esperava apreciando os últimos instantes. O sorriso agora apagado.
     Ela deu o primeiro passo, seu All Star tocando o asfalto. Era mais uma na estatística. Agora o olhar dele estava vidrado nela. O carro veio como esperado. Ela não sentiu nada.
    O sorriso retornou aos lábios dele enquanto o Black rolava esquecido pelo asfalto.

2 comentários:

  1. Tipo, custava parar de olhar o cara antes de atravessar a rua? :p

    ResponderExcluir
  2. Claro que custava, imagina se ela olha ai não haveria história (além disso, o cara era fascinante de mais para ela parar de olhar e ela estava distraida pensando ou seja... não pense quando for atravessar a rua)

    ResponderExcluir